terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Opinião - A Revolução da Mulher das Pevides de Isabel Ricardo

"Europa, ano de 1807.
No antigo continente abatera-se um terrível furacão que estava a arrasar tudo à sua passagem. Napoleão Bonaparte. Este homem estava decidido a tornar-se imperador do mundo e para isso precisava de calcar aos seus pés todos os reinos que lhe fizessem frente."

Um por um, os reinos iam caindo derrotados e conquistados por Bonaparte...
Mas será que as suas tropas tiveram vida fácil em terras lusitanas...?

Sinopse:
Os exércitos de Napoleão ocupavam Portugal. Uma mulher, armada apenas da sua beleza e argúcia, vai despoletar a revolução para os expulsar 

Perante os canhões e as balas dos exércitos franceses, Ana Luzindra só tinha uma arma: a sua beleza. Mas a beleza também pode ser mortal.

A Revolução da Mulher das Pevides transporta-nos para os anos de terror das invasões francesas. A morte e a crueldade marchavam lado a lado com os exércitos veteranos de Napoleão. E enquanto a Família Real fugia para o Brasil, o povo ficava para suportar todo o tipo de humilhações.
Na vila da Nazaré, Ana Luzindra é parteira de profissão e uma mulher simples. Para fazer frente aos canhões e balas dos franceses só tem uma arma: a sua estonteante beleza. Atraindo-os, um a um, para a morte na calada da noite, a jovem inspira toda uma comunidade e pegar em pedras e paus para expulsar os invasores.
A Revolução da Mulher das Pevides, expressão da Nazaré que significa “algo insignificante”, foi tudo menos isso: pelo sobressalto que pregou aos franceses, e pela posterior vingança desproporcionada que estes praticaram sobre a Nazaré, acabou por ser um dos momentos mais importantes da invasão, e inspiraria o longo e árduo caminho dos portugueses e aliados até à derradeira vitória sobre as tropas do temível Napoleão.

Recorrendo a uma pesquisa exaustiva, Isabel Ricardo oferece-nos um bilhete para um dos períodos mais importantes da História de Portugal.

Opinião:
Depois da leitura de "O Último Conjurado" ( podem ler a opinião aqui) a expectativa para esta leitura era muito alta e a Isabel Ricardo não desiludiu em nada. Já esperava gostar do livro pois a escrita da autora é viciante, mas o que me agradou mais foi a dedicação, a pesquisa e o rigor histórico da obra. 
Claro que são as personagens e as suas vivências que fazem o livro, mas gostei muito da parte histórica, as estratégias dos países envolvidos na invasão, as batalhas mais importantes, as datas, os lugares, o número de soldados envolvidos, etc.. 
Não vale a pena falar muito sobre a história em si pois a sinopse é bem explicita. Vou apenas destacar o que mais me agradou na obra.

Destaco em primeiro lugar o povo nazareno, com o seu dialecto característico, desconhecido para mim e que me divertiu imenso ao longo da leitura 
"-É verdade, Tonhe. P'ra mal dos nossos pecades... Esses coirões desgraçades invadiram-nes. Mar os assombrasse!"
"-Este ataque, este tife negral, vai-me inchamardear a roupa toda..."
"-O Francês ' tava arreade com' ós porques!... Saiu daqui aos trepeções e continuou assim na rua, Pra onde é q' ele foi na faç' idéa..."

E as pragas de Joana de Estopa...
"-Mar t' assombrasse!"
"-Vai t'atirar do suberc' abaixe!"

As personagens são de facto um ponto forte mas esperava mais de algumas como é o caso de Ana Luzindra. No entanto outra personagens feminina acaba por ganhar importância e protagonizar um dos momentos mais surpreendentemente cruéis da história. Ainda 'tou aqui assetuada! Esse episódio veio mostrar que a autora consegue ser tão cruel como bem humorada, e é de salientar o equilíbrio que existe ao longo do livro entre todos os momentos divertidos e trágicos, não há mudanças bruscas, as coisas simplesmente vão acontecendo.
Não consigo escolher uma personagem favorita ou a que mais se destaca, pois vão ganhando visibilidade com o desenrolar dos acontecimentos. A Joana de Estopa divertiu-me tal como as crianças, tive um fraquinho pelo Diego, gostei do Rodrigo mas os ciúmes estragaram tudo, a Ana Luzindra começou bem mas depois perdeu-se um pouco... Na verdade o grande protagonista desta história é mesmo este povo nazareno (português) que tudo fez para complicar a vida aos invasores e para defender as suas terras, os seus pertences, o seu reinos e a sua própria vida. 

O rigor histórico traz-nos todos os acontecimentos e protagonistas da Primeira Invasão Francesa, desde os planos de Bonaparte para nos invadir, a aliança com Espanha, locais, datas e resultados das batalhas e a saída das tropas francesas do nosso reino, com a colaboração dos nossos aliados Ingleses, que não foram assim tão amigos no final de contas. Aquela negociação podia ter sido mais vantajosa para Portugal.

Isabel Ricardo consegue de uma forma muito criativa dar-nos a conhecer mais um momento histórico de Portugal. 
A dedicação e empenho na pesquisa histórica é bem visível e o facto da maioria das personagens nazarenas terem de facto existido, sendo algumas antepassados da própria Isabel, torna o livro ainda mais especial.
Grande homenagem, excelente romance histórico e grande escritora.
Um livro cheio de emoções, com toque de humor e horros. Ainda " 'tou aqui assetuada!" =)
Excelente aposta da editora Saída de Emergência.

Não deixem passar o oportunidade de ler este romance, esta história de amor à pátria por um povo que não se deixou cair aos pés do brutamontes Napoleão Bonaparte. As invasões francesas foras as mais bárbaras de sempre, estes soldados foram cruéis, impiedosos e implacáveis, mas nem sempre...

E vocês já leram? O que acharam?

Beijinhos e boas leituras!