quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Opinião - Ninguém Escreve ao Coronel de Gabriel García Márquez


"O administrador entregou-lhe a correspondência. Meteu o resto no saco e voltou a fechá-lo. O médico preparou-se para ler as cartas pessoais. Mas antes de rasgar os envelopes olhou para o coronel e depois para o administrador.
- Nada para o coronel?
O coronel sentiu o terror. O administrador pôs o saco ao ombro, desceu o passeio e respondeu sem virar a cabeça:
- Ninguém escreve ao coronel."

Sinopse:
Publicado pela primeira vez em 1961, Ninguém Escreve ao Coronel é o segundo romance de Gabriel García Márquez, escrito durante a sua estada em Paris, onde trabalhava como correspondente de imprensa desde meados dos anos 50.
Num estilo puro e transparente, com uma economia expressiva excepcional que marcava já o seu futuro como escritor, García Márquez narra com brilho inaudito a história de uma injustiça e violência: um pobre coronel reformado vai ao porto esperar, todas as sextas-feiras, a chegada de uma carta oficial que responda à justa reclamação dos seus direitos por serviços prestados à pátria. Mas a pátria permanece muda…


O meu primeiro contacto com a escrita do Nobel da Literatura Gabriel García Márquez não podia ser melhor. A sua escrita cativante e cheia de ritmo fez com que lesse esta clássico em cerca de duas horas. A história é muito boa e apesar do seu peso sentimental não me deixou triste, deixou-me pensativa.

Este coronel, ex combatente na guerra civil, espera há cerca de década e meia por uma pensão por serviços prestados à pátria, prometida por um governo há muito derrubado. Vive na pobreza com a sua mulher doente, numa casa sem grandes condições e numa ditadura, onde os jornais não contam tudo, a igreja censura os filmes e existe o recolher obrigatório.
O coronel e a sua esposa perderam o seu filho que era de certa forma o sustento da casa. Com a sua morte, restou-lhes apenas o seu galo que agora alimentam na esperança de o poder vender ou levar a ganhar uma luta e com isso facturar. Isso é motivo de discórdia ente os dois.
O pobre homem todas as sextas espera a bendita carta com a pensão que nunca chega e a sua situação piora de dia para dia. Ele deposita todas as esperanças naquela carta e no seu galo que tem de alimentar nem que para isso passe fome.  "A ingratidão humana não tem limites."

O autor escreveu esta obra numa fase da sua vida menos próspera durante uma estadia em paris e acredito que o sofrimento implícito no texto tenha sido vivenciado na primeira pessoa. 
Com a história deste pobre coronel Gabriel G. Márquez, faz uma crítica à burocracia, à sociedade injusta, gananciosa e que só protege os mais fortes e até à forma como os outros olham para a América Latina.

"É a mesma história de sempre (...) Nós passamos fome para que comam os outros. É a mesma história desde há quarenta anos."

Gostei bastante deste livro, a narração é magnífica e li as suas 93 páginas de forma viciante. O final (as últimas palavras) é genial. Depois de ler fiquei com a sensação que já ouvi falar deste livro ou este final na rádio. A última palavra soou na minha cabeça com voz bem colocada e grave, irónica mas sofrida.

Certamente este ano lerei mais alguma coisa deste Nobel da Literatura e vou dedicar umas publicações só a ele. Para já fica a minha experiência com esta primeira leitura e o convite à sua leitura.

E alguém por aí já leu este livro? O que acharam? Gostava de saber as vossas opiniões =)
Beijinhos e boas leituras!