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sábado, 30 de janeiro de 2016

Opinião - Não há aves em Sobibor de João Carlos Máximo

"Eram muitos com fome, com ideias macabras, mas a porta, felizmente, estava ali, muito perto ao nosso alcance. Aquela experiência que fui desenvolvendo e repensando enquanto regressávamos ao esgoto, fez-me perceber o quão comovente era o nosso cenário, porque afinal, uma vez chegados ali, já não podíamos confiar em ninguém, já nem nos nossos podíamos confiar, o instinto animalesco de sobrevivência, esse os nazis quiseram accionar e experimentar em cada um de nós, (...)"

Sinopse:
Aquele que ousa esquecer a sua história, arrisca-se a vivê-la de novo.
Auschwitz era uma cerca de metal ondulando na brisa, era um piano que tocava num tremor desalmado pelas cordas de arame farpado...milhares de claves que me amoleciam o espírito, que me levavam à depressão. As barracas e o sonho da minha infância, levado por Karol e Dragomir.
(Henryk) - "Sobibor? Que lugar é esse? Porquê? O que têm aquelas árvores?"
(Isaac) - "Falta quem lhes dê música. Falta quem as habite. Quem lhes dê vida e movimento."
(Henryk) - "Mas, não há pássaros, aqui?!"
(Isaac) - "Não, filho! E é por isso que eu sei, e que eu tenho a certeza, que não estamos em Auschwitz, mas sim, num outro lugar chamado Sobibor. E é por isso que eu sei que tudo isto tem importância, que tudo isto irá ser lembrado, um dia!"
(Henryk) - "Não há aves em Sobibor?"
(Isaac) - "Não, Henryk. Não há aves em Sobibor..."
A neblina matinal que tarda em desaparecer, os telhados negros, os gorros siberianos, a ausência de natureza, o barulho ensurdecedor das máquinas, as malas dos ciganos na linha do comboio, a primeira cortina de ferro da história da humanidade. O enforcado que subia ao altar, a filha de Rudolf Höss a brincar no alpendre, a marcha dos soldados, as saudações, e tu, Europa, minha bela Europa, que me tocas, que me carregas, que me trazes protegido sob as lonas deste jipe furtivo da Wehrmacht. Talvez, por sorte, talvez, por pouco tempo, fosse possível prolongar aquele diálogo interrompido, lá longe, ainda lá fora, em pleno campo de extermínio de Sobibor.
(Isaac) - "Então, meninos! Querem saber qual é o meu segundo sonho?"
(Erek) - "Porque não usa uma estrela amarela, como nós? Em vez disso, porque tem um triângulo vermelho virado ao contrário?
(Iwona) - "Deixa comigo. Eu depois explico-te."

Opinião:
Este livro conta a história de dois irmãos, judeus polacos, capturados pelos nazis após a invasão das tropas alemãs à Polónia. Vão passar pelo Gueto de Łódź, o Gueto de Varsóvia até serem levados para Auschwitz. Durante este percurso vão conhecendo algumas pessoas que vão viver com eles o medo, a fome e horror dos atentados à sua vida, mas também a luta pela sobrevivência, a bondade e os pequenos milagres que surgem nos piores momentos, pois a esperança é a última a morrer e é importante ser-se óptimista.
É através da história destes irmãos que o autor nos leva numa viagem até ao Holocausto Nazi. 
Com a leitura deste livro ficamos com uma ideia dos horrores vividos por todos os que foram perseguidos, das loucuras megalómanas de um ditador desumano e de uma Europa fria, escura e em guerra. Este livro é uma boa opção para quem quer começar a conhecer este período histórico.

Depois da agradável surpresa com o Para sempre Carcóvia, livro do mesmo autor, estava muito curiosa para ler este livro. Confesso que gostei mais desta obra, talvez pelo tema ser mais conhecido ou por já estar familiarizada com a escrita do João Máximo, a verdade é que eu li com mais entusiasmo, com mais ritmo e em poucos dias.
O autor é possuidor de um vocabulário riquíssimo e isso valoriza a sua escrita. Ainda é assustador olhar para algumas páginas e ver que não contêm parágrafos, mas o ritmo de leitura não se perde, ao contrário do primeiro livro onde senti dificuldade com o narrador e o autor a falar ao mesmo tempo. Bem sei que estas histórias são a via para o autor partilhar connosco a sua experiência, mas por vezes perdia-me um pouco. 
Então fica a dica; se queres iniciar este autor, começa com este livro.

Agora tenho de falar de alguns pontos negativos. É apenas a minha opinião e vale o que vale. 
Embora compreenda que o objectivo principal do autor seja abordar o tema do holocausto e transmitir o que sentiu ao visitar todos aqueles locais (acreditando eu que seja isso), por vezes surgiam diálogos que me pareciam um pouco forçados ou sem emoção. Caramba, aqueles miúdos perderam os pais, estão a viver horrores e eu queria que eles sentissem mais desespero, dor, confusão, luto... o João criou boas personagens e gostei delas, mas faltou-lhes um pouco de emoção. Outro momento que também gostava de ver mais desenvolvido foi a estadia no Gueto de Łódź, acontece tudo muito rápido e Iwona conhece todo o gueto e seu funcionamento de forma imediata.

No geral gostei bastante de ler este segundo livro do João Maximo, onde ele demonstra o seu "amor" ao velho continente, esta Europa tão bela mas também capaz das maiores atrocidades e de um leste que tem os seus encantos mesmo nos momentos mais sombrios.
Gostei também da discreta homenagem que faz ao seu irmão e do momento que dá nome ao livro.
Fiquei cheia de vontade de conhecer melhor esta época histórica e ler mais histórias vividas naqueles locais.

Teria muito mais a dizer sobre o livro mas o texto já vai longo. Espero pelos vossos comentários, incluindo o do João Máximo, pois seria importante para esclarecer alguma dúvida ou lapso da minha parte.
Quanto a ele, desejo o maior sucesso e que continue a escrever. Fico à espera de novidades.

Boas leituras!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Opinião - Para sempre Carcóvia de João Máximo

"(...) Era eu que estava ali, sentado a olhar. E pela primeira vez na minha vida eu sentia forças invisíveis, a elevar-me cada vez mais alto, até ultrapassar as montanhas, os montes e as colinas, até ultrapassar as cidades, as vilas, e as pequenas povoações, que via desaparecer aos poucos, debaixo de mim. Tudo ia ficando cada vez mais pequeno.(...)"

Sinopse:
Pequenas névoas espalhadas no céu. E um tipo de peugada assim, eu conheço… e só podia ser feito por aqueles bombardeiros que vinham desde a Heldenplatz, até aqui.
(senhora) – És alemão? Há muito tempo que não via um alemão por aqui.
(Kurt) – Não. Sou austríaco. Nasci na Áustria, que faz fronteira com a Alemanha.
(senhora) – Engraçado. Pensava que a Áustria fazia parte da Alemanha.
(Kurt) – Fez em tempos, sim. Mas agora já não.
(senhora) – Chamo-me Urszula. Prazer em conhecer-te.
(Kurt) – Percebo. E viveu sempre aqui? Do que vive ou o que é que faz aqui, se é que posso saber? É casada? Tem filhos? Os seus netos costumam vir vê-la?
(Úrsula) – Não, rapaz. Nunca me casei. Como me podia casar se não há aqui ninguém?
(Kurt) – Percebo. Mas está informada, certo? Tem televisão? Ou rádio? Lê jornais? Sabe o que se passa no mundo?
(Úrsula) – Vou sabendo o que se passa, pela televisão… Tenho-a há uns anos recentes, juntamente com o telefone e a luz. A vida desde a independência mudou por aqui, e para melhor, tirando a paisagem. Este lugar era ainda mais bonito antes da guerra.
(Kurt) – Ainda mais bonito? Este lugar é lindo, minha senhora. Olhe só para este céu, veja como é belo e espaçoso.
(Úrsula) – Sim. Não há um céu como este…

Opinião:
Mais do que um romance, este Para Sempre Carcóvia é um retrato poético de um lugar que marcou imenso o autor. Uma dedicatória de cerca de 500 páginas a um lugar especial. João Máximo leva-nos numa viagem até Kharkiv, Ucrânia.
A história centra-se na relação entre o avô Lenine e o seu neto Kurt com o conflito de gerações e as experiências porque passam, mas o mais interessante são as reflexões, memórias e descrições do autor.
Logo no inicio somos surpreendidos com uma escrita poética e muito cuidada que nos cativa. Depois ao longos da história temos diálogos ou reflexões sobre a sociedade, religião e passado histórico que nos fazem pensar também. Se juntarmos a isso factos históricos e um retrato de um local que passou por tantas transformações, temos mais do que razões suficientes para não largar este livro.
Gostei da forma como o João nos apresenta as personagens e da sua importância nos momentos mais marcantes, mas fiquei triste por uma, pois esperava mais do Taras. A minha personagem favorita sem dúvidas é Lenine, um homem de outro tempo e fiel aos seus valores, muito marcante. 
Também me impressionaram alguns factos históricos, como a guerra e os campos de trabalho forçados, algo que só imagino na 2ª Guerra Mundial mas que se passou há pouco mais de duas décadas. 
Por fim... Se o inicio o livro me deixou cheia de entusiasmo e sorriso feito, o final deixou-me totalmente arrebatada. Algo inesperado acontece e ao mesmo tempo algumas peças que perdi no meio da história entre tantas descrições e reflexões, encontram o seu lugar e tudo faz sentido.

Esta é uma obra que requer tempo, pois apesar da escrita cuidada e rica, a leitura nem sempre tem o ritmo que desejamos, temos de nos deixar embalar. É um livro que recomendo a todos.
João Máximo é um jovem cheio de talento, muito culto e viajado. Para sempre Carcóvia, lançado em 2013 é o seu primeiro livro e este ano lançou Não há aves em Sobibor, minha próxima leitura.

João Carlos Máximo nasceu em 1988, na localidade de Unhais da Serra, concelho da Covilhã.
Foi músico de Saxofone Alto e atleta federado. João Carlos Máximo é Licenciado em Ciências Biomédicas, pela Universidade do Algarve, desde 2009. Em 2012, foi finalista da iniciativa “O meu movimento – Não tenho que emigrar para me formar”, concurso promovido pelo Governo de Portugal.
Nestes últimos anos passou por vários países dos continentes Europeu, Africano e Asiático.
Hoje em dia, frequenta o curso de Ciências Farmacêuticas da Universidade da Beira Interior, e é colaborador do Jornal “Correio de Unhais”, sendo o autor de uma crónica mensal, intitulada “O Mundo”.

Boas leituras!




sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Opinião - Seu Moço de Patrícia Pirota

"Esse livro é dedicado a todas aqueles que, como o Seu Moço, às vezes precisam de alguém para lhes lembrar de que a força que tanto procuram está dentro de si mesmos."

É assim que Patrícia Pirota "professora por formação e de coração, blogueira por acaso, youtuber desastrada, tuiteira e instagrammer entusiasmada" nos apresenta Seu Moço, o seu primeiro livro editado.

Sinopse:

Seu Moço, é uma parte de todos nós. Dizem por aí que são conselhos, terapia, poesia, afago pra alma, pílulas de delicadeza...
No fundo, são apenas conversas despretensiosas – daquelas na rede da varanda, com uma xícara de café fresquinho e uma brisa boa nos acariciando o rosto - entre aqueles que estão aprendendo a viver.
A vida fica muito mais bonita quando temos companhia. Junte-se você também a nós.

Seu Moço, começou por aparecer na forma de Tweets, pensamentos, que a Patrícia partilhava no seu Twitter pessoal e mais tarde levou para o Instagram. Seu Moço foi ganhando vida e rosto, e com o tempo tornou-se poesia que agora se encontra reunida neste livro.

Foi no Instagram que conheci o Seu Moço. Seguidora atenta da Patrícia Pirota, a youtuber e bloguer que me fez criar o meu próprio blog e apaixonar pela literatura, estava sempre à espera de novas partilhas e quando surgiram os primeiros textos fui logo cativada. Identifiquei-me com aquelas palavras e de certa forma reconfortavam-me. 

"Seu Moço,
Um dia ruim não justifica uma vida ruim.
O tempo é cortado em retalhos pra que a gente possa costurar só aqueles que nos fazem bem."

Patrícia Pirota:Nascida em 1982, em Dourados-MS, Brasil, aprendeu desde cedo que é necessário olhar a vida com os olhos coloridos de poesia, e que as palavras podem ser nossa salvação.
Descobriu-se escritora quando a sua voz e sua coragem não se fizeram suficientes. Escreve por amor e por necessidade de botar a alma pra passear.
Professora por formação e de coração, blogueira por acaso, youtuber desastrada, tuiteira e instagrammer entusiasmada, compartilha na rede seus sentimentos, pensamentos e, principalmente, seu amor pela palavra, pela Literatura e pelas Histórias em Quadrinhos.

Seu Moço por Patrícia Pirota

Este é daqueles livros que fechamos com um sorriso no rosto, daqueles que deixamos na mesinha de cabeceira para abrir ao acaso antes de deitar e nos aconselhar-mos... e fazer as pazes com a vida.
Não percam! 

Boas leituras =)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Opinião - Espada que Sangra de Nuno Ferreira

Fixem este nome: NUNO FERREIRA!

Autor deste fantástico livro Espada que Sangra, primeiro volume da série, Histórias Vermelhas de Zallar. 

Sinopse

"A palavra dos homens teve muito crédito, em tempos idos. Mas quando a soberba e a sede de poder e glória moldam o comportamento humano, a mentira torna-se um instrumento para pentear as suas próprias fraquezas."

Espada Que Sangra é o primeiro volume de Histórias Vermelhas de Zallar, um delicioso cocktail de fantasia, intriga, mistério, suspense, erotismo, aventura e ação, passado num mundo fantástico de civilizações que nos apaixonam a cada página. Zallar é um mundo complexo, onde três continentes lutam arduamente pela sua sobrevivência. No Velho Continente existe uma terra almejada há milénios, desde os tempos em que os medonhos Homens Demónio dominavam a região: Terra Parda, onde as cidades-estado são chamadas de espadas e um minério conhecido por tormento negro tornou possível a existência de armas de fogo. Hoje, são os descendentes dos extintos Homens Demónio quem ameaça as fronteiras desta terra próspera em vegetação, savanas e desertos - os malévolos mahlan. A Guerra Mahlan está prestes a atingir o seu ápice, e agora, tudo pode acontecer. Mas Lazard Ezzila e Ameril Hymadher, reis das principais fortalezas de Terra Parda que viveram um intenso romance na sua juventude, vão perceber de uma forma perturbadoramente selvagem que os seus maiores inimigos podem viver consigo ou partilharem dos seus próprios lençóis.

Opinião:

Tenho de começar por falar da capa e da sinopse deste livro pois são verdadeiramente incríveis. Se entrasse numa livraria e desse de caras com este livro, não hesitava em pegar-lhe, a capa é muito boa! Quanto à sinopse, creio que consegue convencer qualquer amante de romance fantástico e não só, a ler.
Zallar é realmente um mundo complexo, cheio de mistérios, intrigas, sangue e sensualidade. 

Adorei este Espada que Sangra!
Levei algum tempo a entrar na história devido a quantidade de informação sobre este mundo criado pelo autor, mas a escrita cativante e muito cuidada, não me deixaram desanimar. 
O Nuno começa por nos apresentar de forma muito detalhada e bem conseguida, o universo Zallar, desde a sua criação, evolução das espécies até ao tempo em que a acção decorre. Logo nesse preâmbulo percebi que não estava perante um livro qualquer. Foi muito corajoso e inteligente da parte do autor criar o seu próprio mundo, com bases tão sólidas. 
Confesso que algumas vezes temi que o livro se tornasse demasiado descritivo pois o Nuno pensou em tudo ao mais pequeno pormenor, mas as descrições só enriquecem a leitura e facilitam a construção de cenários na nossa mente.

Todas as personagens, as várias raças, foram muito bem trabalhadas. Gostei bastante dos Hurkk, os mensageiros de Hymadher e o povo El'ak. 
Como personagens principais temos Ezzila, Hymadher, Hamsha e Góron (os meus favoritos) e o odioso Amarion. São personagens bastante complexas e apaixonantes, muito humanas e as vitimas confundem-se com os vilões. No final deste volume tudo fica em aberto. 
Apesar do papel principal e o destaque dados a estes senhores de Terra Parda, os personagens secundários são bastante importantes e decisivos ao longo dos acontecimentos e sem que estejamos a espera alguns vão ganhando destaque ou são eliminados. 
Zallar está cheio de intrigas, traições, paixões e histórias sangrentas, o inimigo espreita em qualquer esquina. 

O autor criou um mundo tão complexo que cheguei a temer por ele. Ao longo da leitura, inspirada pela maldade de algumas personagens, procurei defeitos, momentos em que os acontecimentos não fizessem sentido, procurei falhas mas o Nuno esteve à altura do universo que criou e espero que a critica o reconheça.

Acho que faltou neste edição um mapa e informação sobre os personagens. São tantas que no inicio é complicado e perdi-me algumas vezes. Aproveito para informar que o autor está a trabalhar bastante nessas informações e podemos encontrar tudo sobre Zallar no seu blogue. 
Fez-me lembrar Martin com as Crónicas de Gelo e fogo, apesar de este universo ser bem diferente. Creio que o Nuno se pode vir a tornar o "nosso Martin" só precisa que lhe dêem o destaque que merece. 
Foi muito corajoso ao apostar no romance fantástico, num país onde cada vez se lê menos este género literário. Desejo que o seu trabalho seja uma mais valia para mudar esta tendência e que as editoras voltem a apostar nestes autores. 

Tinha muito mais a falar deste livro, mas é uma experiência que têm de viver pessoalmente. Invistam nesta série. Atrevam-se a viver esta aventura por terras de Zallar.

Os meus parabéns ao Nuno Ferreira por esta obra literária. É um livro que vale muito a pena ler! Recomendo vivamente. É um excelente arranque de série e o final deste volume deixou-me completamente entusiasmada para ler o próximo. 
Atribuí 4 estrelas no Goodreads e espero que os próximos volumes superem esta avaliação. 

A Chiado Editora tem um excelente autor de fantasia neste momento e gostava imenso que lhe desse o apoio e destaque que merece. Acredito que sim, pois uma boa editora leva bons livros ao público. 

Boas Leituras


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Opinião - Os mistérios de Santiago de Raul Minh'alma



Sinopse:
Vila Cave, uma aldeia moribunda perdida no Douro, tão mortiça e sem cor. Talvez por isso a natureza lhe tenha dado uma flor. Uma flor com mais cores que as restantes juntas, uma flor que sem querer ali floria, que ali então crescia, mas que ali não iria morrer. Era uma flor diferente, era um ser carente, era tanto que se tornava incógnito. Era uma dúvida, uma incerteza, uma esperança indecisa na ânsia de acordar. Era o medo de alguém, era a indiferença de outros, mais que um mistério, era um segredo, e esse segredo tinha um nome, e esse nome era Santiago.

Opinião:

Confesso que a minha opinião foi variando ao longo da leitura. A minha expectativa a cerca desta história era alta e antes de começar a ler já tinha criado alguma simpatia por Santiago. Foi uma leitura com altos e baixos e por momentos achei que ia ser uma desilusão mas felizmente isso não aconteceu e acabei por gostar. 
O livro tem um inicio muito forte e até meio li com bastante entusiasmo, depois o ritmo foi-se perdendo, a história também e comecei a reparar mais nos pontos negativos da escrita do autor do que na história em si. Talvez por não ter gostado do rumo que escolheu para Santiago a dada altura, senti-me um pouco desiludida, nem sei se com o Santiago ou com o Raul Minh'alma. 
Nos últimos capítulos a história ganhou ritmo e gostei do final.

Esta história inicia-se na década de 80. Santiago era uma criança que apesar de tenra idade a vida já o marcava a cada dia que passava. Vítima de violência e exploração por parte do pai, Santiago só encontrava algum carinho junto de Helena, a sua ama e protectora e do seu fiel amigo, Patusco, o cão. Apesar destas dificuldades, Santiago encarava a vida com um sorriso e sentia que era seu dever ajudar toda a gente, incluindo o pai. Helena teve um papel muito importante na educação e formação de Santiago e a cada ano que passava, este tornava-se uma criança cada vez mais inteligente, bondosa e especial... muito especial.
Leninha, como era tratada por Santiago, oferece ao seu protegido, um diário. Ao inicio não lhe dá grande importância, mas a certa altura não se vai separar dele, será o seu confessor e chave para desvendar alguns mistérios.
A vida de Santiago vai dar muitas voltas. Revelações, tragédias, mudanças inesperada e mistérios a cerca da sua própria vida vão surgindo ao longo do história. 
É uma longa caminhada onde vai encontrando amigos a quem deixa a sua marca, o seu sorriso, amizade e incentivo para que não desistam dos seus sonhos.
Apesar da vida ser tão dura com Santiago ele não se deixa endurecer e continua com o seu coração generoso. Talvez por isso a vida o tenha recompensado e dado uma grande oportunidade.

Alguns acontecimentos são completamente inesperados e apanharam-me de surpresa. Também não esperava certas atitudes desta criança e por momentos senti vontade de lhe puxar as orelhas.
É verdade que não concordo com o rumo que a certa altura o autor escolher para aquele menino, mas acabei por compreender no fim qual a sua ideia. 

Quanto a escrita do autor, achei simples mas por vezes dava-me a impressão que os pensamentos de Santiago se misturavam com os seus e divagava um pouco. Não considero errado, entendo a mensagem que o autor queria passar, mas por vezes tornava a leitura um pouco lenta lenta. 
Outro ponto que acho que faltou trabalhar mais, foram os diálogos, alguns não gostei e fez-me confusão o uso de certo vocabulário, tendo em conta que eram crianças e de classe baixa.
São pormenores que se vão trabalhando com o tempo e espero que este não tenha sido o único livro de Raul Minh'alma.  

Um ponto muito positivo neste livro é mesmo a personagem principal, o autor consegue logo de inicio criar uma empatia entre Santiago e o leitor. Gostei muito de conhecer o Santiago e apesar de se ter portado um pouco mal guardo uma certa ternura por aquele menino de olhos verdes. Gostei do seu final.

No geral é um livro que se lê muito bem e recomendo. É uma história cheia de mistérios que o protagonista precisa resolver para saber quem é. Mostra a importância de conhecer alguém antes de julgar e do perdão para fazer as pazes com o passado e seguir em frente com mais esperança. É um livro que fala de destino e de sonhos.

E tu...? Qual é o teu sonho?

Boas leituras!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

As Crónicas das Canções do Diabo de Alexandre Colaço

Sinopse: A luta pelo poder na cidade e no deserto é um jogo feroz que traz consequências mortais e deixa um rasto de sangue e destruição por onde passa. Todos querem exercer o seu domínio e tentam-no fazer a qualquer custo.
Quando uma troca combinada corre mal, o responsável pode ser qualquer um. O caos que se gera a seguir é apenas mais um pretexto para uma disputa sombria por vários tipos de poder. Saber quem sobrevive à luta é só um dos muitos condimentos que apimentam e preenchem este mundo de perseguições e mortes.
«As Crónicas das Canções do Diabo» são histórias que se cruzam e que relatam coisas más e ruins que acontecem às pessoas e das quais também elas são alvo. Ninguém está livre do mal que os percorre. As ações que caracterizam esse mal são representadas de uma forma direta e precisa, como uma faca afiada a cortar e a espetar. Quase como se o Diabo estivesse a tocar guitarra com os dedos. A tocar e a cantar blues. Estas são as suas canções.

Este é o tipo de livro que vejo, leio a sinopse e quero logo comprar. 
Foi com grande entusiasmo que comecei a As Crónicas das Canções do Diabo, mas confesso que me foi desiludindo até ao fim.
Acho que estamos perante uma grande ideia, que daria uma boa história, mas o autor não soube passar para fora. Eu achei isso. Sempre que podia ficar interessante, não evoluía. 
Gosto da ideia do deserto perigoso, com grupos rivais entre eles as Queens of Doom, um grupo de mulheres que controlam uma das partes do deserto, sexys e perigosas. Um homem que tem necessidade de matar pessoas. A dona de um bar, sexy, destemida e dominadora que vende um produto de alta qualidade em troca de uma droga para um dos poderosos do deserto controlar o homem psicopata, que lhe faz uns serviços de vez em quando.
Um dia uma troca corre mal, estes três poderes vão cruzar-se e nada volta a ser como era antes.
Como já referi, gostei da ideia do autor e adorava sentir empatia com alguma personagem mas isso nunca aconteceu. O autor quis marcar certos acontecimento e ideias e com isso tornou-se repetitivo em algumas ocasiões. Na minha opinião faltou desenvolver melhor as personagens. Seria interessante entrar um pouco na mente do Cold Blood Killer, o assassino. As Queens of Doom , mulheres fortes do deserto, podiam ser mais trabalhadas. Vi o empenho do autor para passar a ideia das guerreias, sexys e perigosas, mas não me entusiasmaram, as descrições pareceram-me de certa forma forçadas. O big boss, mafioso do deserto, no final tem um comportamento completamente contraditório. Era um homem perigoso e poderoso caramba!! Entre outras coisas.
Não quero com isto dizer que é um mau livro, só não me entusiasmou e dei por mim a querer que tivesse menos páginas e mais conteúdo (no que diz respeito ás personagens principalmente).
Reparei também em alguns erros na escrita. 
Repito, não é um mau livro, lê-se muito bem e para quem está a começar é uma boa aventura.    

Algo que adorei neste livro e para não ficar a e ideia que só vi defeitos, a capa e a contracapa. Como tinha dito a capa conquistou-me logo e tem a ver com o conteúdo. Parabéns a quem desenhou.

Já alguém leu este livro? Gostaria de conhecer outras opiniões e trocar impressões.

Boas leituras

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pra lá de Bagdá de Joana Godoy

Sinopse:

Uma vida de sonhos e de ilusões estraçalhadas.
De luta, não só pela sua própria sobrevivência como a de seus filhos, e acima de tudo, uma luta ferrenha contra sérios problemas emocionais que a levaram a inúmeras internações psiquiátricas, capazes de causar irreparáveis traumas.

Mas nem tudo são sombras na vida desta mulher guerreira. Sobram-lhe sucesso na criação dos seus filhos companheiros de toda a vida, a constante presença de fiéis amigos, a vida profissional que se cumpre com relativo sucesso apesar dos pesares.

É disto tudo que trata Pra Lá de Bagdá um livro que pretende tocar também os seus sentimentos.


Pra lá de Bagdá é um relato impressionante de uma mulher guerreira. Uma mãe corajosa que apesar dos seus estados de loucura não perdeu noção das suas responsabilidades. Joana é um exemplo para muitas mulheres. Teve a coragem de se divorciar quando se apercebeu que o casamento já não fazia qualquer sentido, lutou pelos seus filhos e sempre se preocupou com a sua formação profissional e progressão na carreira, para assim poder dar uma vida melhor aos seus filhos.
Joana Godoy é um exemplo para mim  e muitas mulheres que passam por momentos mais angustiantes. 
Ao longo deste livro conhecemos um período da sua vida em que a razão e a sua determinação se misturam com estados de loucura que vão piorando ao longo do tempo. O que mais me impressionou foi a sua força para sobreviver, a luta por um emprego melhor.
Joana tinha um problema, não sabia lidar com o amor, gerir emoções. Ao longo do livro descreve algumas situações em que me revi, como amores platónicos e obsessivos, mas que no seu caso a levaram a loucura sendo sujeita a vários internamentos e tratamentos pesados. Desenvolvi tal empatia com Joana que cada recaída me custava também.

Joana é uma super mulher e recomendo este livro a todas as mães e não só, que atravessam ou atravessaram momentos piores na sua vida. 
Acredito que pode ser classificado com auto-ajuda também, é um exemplo de vida, de coragem e determinação. 
Recomendo também a quem se interessa pelo comportamento humano. Foi isso que despertou o meu interesse e fiquei bastante satisfeita.

Confesso que quase desisti ao inicio. Joana Godoy é brasileira, obviamente o livro está escrito em Português do Brasil e demorei um pouco a habituar-me. Mas a certa altura a história ganha um ritmo alucinante e assim que cheguei lá, li bastante bem, ignorando uma ou outra palavra que não entendia. Ainda bem que não desisti.

A história de Joana tocou-me. Revi-me algumas vezes nas suas experiências. Fica o seu exemplo e o meu  maior respeito pela loucura humana.

Este livro é uma edição Chiado Editora e podem adquiri-lo aqui. 

***

Comentário muito pessoal

Terei eu roçado a loucura? Aquela loucura doente? 
Certas atitudes estranhas apenas me pareceram festejos de batalhas ganhas. Nada que eu não faça =)

"Dei festinha para comemorar a instalação de cortinas em toda a casa, outra para comemorar a compra de um aparelho de som."

Revi-me em tantos pensamentos de Joana que suspirei de alivio pelo meu estado de saúde mental. 
A dada altura é diagnosticada esquizofrenia a Joana, não era só um problema de gestão emocional...